27/03/2026 | 05:23 | Polícia 8 min de leitura
Em 2026, o Rio Grande do Sul já contabiliza 47 órfãos de feminicídio, sendo 27 menores de 18 anos
Liliane de Grammont tinha apenas dois anos quando perdeu a mãe, assassinada pelo ex-marido e pai de Lili, como é conhecida. O caso, que ganhou repercussão nacional à época, e a história da menina órfã fortaleceram a mulher que hoje, aos 46 anos, se tornou ativista pelos direitos humanos e pelo combate à violência de gênero.
Lili de Grammont está nesta quinta-feira (26) em Porto Alegre para a abertura do seminário: "Ampliando o olhar de Justiça – feminicídio, subnotificação e respostas institucionais". O evento, promovido pelo Ministério Público (MP-RS) segue até sexta (27), aberto ao público e com entrada gratuita. A programação ocorre no Auditório Mondercil Paulo de Moraes, na sede do MP-RS.
— Minha mãe vive em cada mulher que não morre. Falar em um seminário para pessoas que trabalham na linha de frente do enfrentamento da violência, promotores, juízes, defensores, é falar da mulher que vive em mim, na minha história, mas em tantas outras que estão aqui — diz a palestrante.
Lili se tornou coreógrafa, psicóloga, e palestrante. Sua manifestação no seminário é intitulada “Órfã do feminicídio: transformando a dor em força”. Para ativista, quebrar o silêncio, identificar e evitar a violência são responsabilidades das políticas públicas associadas à conscientização de toda a sociedade.
— Feminicídio é um crime evitável e uma morte anunciada, na maioria dos casos. A violência tem começo e fim. Começa com a pressão psicológica, dá sinais até se tornar fatal — sinaliza Lili.
Com base nas informações disponíveis sobre 24 feminicídios registrados neste ano no Rio Grande do Sul, o MP-RS identificou 47 órfãos, sendo 15 maiores de 18 anos e 27 com menos de 18 anos. Há outros cinco órfãos vinculados a um caso específico, cuja vítima era natural da Paraíba. Os filhos residem naquele Estado, não sendo possível, até o momento, determinar se são maiores ou menores de idade.
Lili de Grammont contextualiza a própria experiência como alerta de que o extremo da violência costuma partir de comportamentos enraizados.
Não está longe de nós. Meu pai não era um monstro. Era um homem socialmente perfeito, mas autor de violência, misógino e machista.
Embora uma recente e importante lei permita pagamento de pensão a órfãos de feminicídios, a ativista observa que é preciso ir além de políticas financeiras. Propõe e tem discutido em seminários e palestras em todo país a criação de Centro de Referências aos Órfãos de Feminicídios, que ela mesma denomina de Crofs.
— O Brasil registra cerca de 2 mil órfãos de feminicídio por ano. O trauma psicológico é profundo. A violência acaba quando a mãe morre, mas, para o filho, é outra violência que começa. Acaba também a ideia da paternidade, porque também "morre" esse pai e nasce um assassino — salienta Lili.
Liliane de Grammont, 46 anos, é dançarina, psicóloga, ativista e palestrante. Atualmente, é coreógrafa da Cia de Dança de São José dos Campos e trabalha também com outros grupos artísticos.
A artista utiliza a dança e o diálogo sobre direitos humanos para combater a violência contra a mulher.
É filha única dos cantores Eliane de Grammont (assassinada pelo pai em 1981) e Lindomar Castilho.
Eliane era cantora de MPB e morreu aos 26 anos. Em 1981, retomava a carreira após o fim do relacionamento com o companheiro. Na madrugada de 30 de março daquele ano, fazia uma apresentação na boate Belle Époque, em São Paulo. Cantava uma versão do clássico João e Maria, de Chico Buarque, quando seu ex-marido entrou e a matou a tiros. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu a caminho do hospital.
O homem foi preso em flagrante, mas posteriormente respondeu em liberdade até ser condenado a 12 anos e dois meses de prisão. O júri ocorreu em 1984. Ele ganhou a liberdade em 1996.
Lili foi criada pela avó materna, que morreu quando ela tinha 15 anos. Somente depois, aproximou-se mais do pai para conhecer a própria história.
Em 2025, Lindomar faleceu, aos 85 anos, em decorrência de uma infecção pulmonar. Nos três anos que antecederam a morte, Lili cuidou do pai.
— A dor do filho que perde a mãe tem camadas emocionais muito profundas. Não é uma questão de perdoar ou não, mas de compreender-se também como vítima. Entender que amor não é violento, crescer sem reproduzir isso — afirma.
"Ampliando o olhar de Justiça – feminicídio, subnotificação e respostas institucionais"
Brigada Militar – 190
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Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
Ministério Público
Defensoria Pública - Disque 0800-644-5556
Disque 100 - Direitos Humanos
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