08/12/2025 | 08:39 | Polícia 3 min de leitura
Criminosos cobravam de R$ 830 a R$ 2,3 mil, dependendo do tempo de gravidez, e ofereciam conselhos de médicos
A Polícia Civil gaúcha e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), ligada ao Ministério da Justiça, identificaram uma rede de criminosos que estimula a realização de abortos mediante pagamento. A orientação para a prática, que é crime salvo em casos específicos, é feita toda pela internet e a quadrilha cobra de R$ 830 a R$ 2,3 mil, dependendo do tempo de gravidez.
São cumpridos nesta segunda-feira (8) 23 mandados judiciais de busca e apreensão em João Pessoa (PB), Goiânia e Valparaíso (GO), Nova Iguaçu (RJ), Aracruz (ES), Irecê e Itaguaçu (BA), Santos Dumont (MG) e Brasília (DF). A ação tem como objetivo desarticular essa organização criminosa interestadual, especializada no tráfico de medicamentos controlados, com destaque para o Cytotec (Misoprostol), substância utilizada ilegalmente para a prática de aborto. A droga é de uso controlado, de venda proibida em farmácias e só poderia ser utilizada em hospitais. Uma pessoa foi presa em flagrante por porte de arma e maconha.
Além da venda ilegal do medicamento, os quadrilheiros ofereciam orientações e suporte às gestantes quanto ao modo de administração do fármaco durante o procedimento abortivo. A investigação é conduzida pela Delegacia de Polícia de Guaíba, porque o primeiro caso identificado foi neste município da Região Metropolitana. Uma mulher realizou o aborto de dois bebês e acabou hospitalizada com dores muito fortes.
Ouvida, ela informou que havia ingerido o medicamento misoprostol, que lhe fora vendido pela internet. Junto com os medicamentos, a jovem também teria contratado os serviços de assessoramento técnico no momento do aborto, ajuda essa prestada online por uma "doutora".
— Só que, no momento em que mais precisava, a vítima não conseguiu mais respostas da suposta médica, o que caracteriza negligência. Se é que a médica existe — comenta a delegada Karoline Calegari, da delegacia de Guaíba.
A mulher declarou ter sido abordada na internet após fazer pesquisas na internet sobre "gravidez indesejada". Recebeu dica de um número de WhatsApp, pelo qual trocou mensagens sobre como fazer o aborto com segurança. Depois, ela foi incluída num grupo de mensagens chamado "Sinta-se acolhida", no qual mulheres eram incentivadas a abortar.
Ela recebeu em troca uma tabela de preços, que varia conforme o estágio da gestação. Quando o feto tem poucas semanas, o preço do medicamento e da orientação é R$ 830. Com meses, pode chegar R$ 2,3 mil.
A gestante então pagou R$ 1,8 mil e agendou a data para o procedimento (uso do medicamento abortivo), passando a agir conforme era orientada. Após usar a droga, ela passou a sentir fortes dores e acabou abortando gêmeos, após ser hospitalizada.
A Polícia Civil rastreou as mensagens e identificou os administradores do grupo, que abrange diversos Estados. Conforme a delegada Karoline, mais de 250 mulheres-vítimas integram o grupo. A partir das apreensões, os policiais querem identificar valores obtidos pela quadrilha e suas ramificações.