28/10/2025 | 05:30 | Polícia 6 min de leitura
Julgamento será retomado nesta terça-feira (28). Em depoimento, o réu Jeverson Olmiro Lopes Goulart disse que é inocente
O primeiro dia do júri do caso Andrei foi encerrado por volta das 22h30min desta segunda-feira (27), no Foro Central, em Porto Alegre. A sessão, que durou mais de 12 horas, foi suspensa no final da noite e será retomada nesta terça-feira (28).
O tenente aposentado da Brigada Militar Jeverson Olmiro Lopes Goulart, 60 anos, é acusado da morte do sobrinho, Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves. O crime ocorreu em novembro de 2016, quando a vítima tinha 12 anos, na zona sul da Capital.
Segundo o Ministério Público, o réu estuprou a vítima e cometeu homicídio para esconder o abuso. Ele responde por homicídio duplamente qualificado — mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e para assegurar a ocultação de outro crime — e estupro de vulnerável.
A história foi relevada pela Rádio Gaúcha em março de 2020, após a mãe do menino, Cátia Rosimary Lopes Goulart, insistir por três anos e conseguir uma mudança no andamento do caso, que havia sido concluído pela Polícia Civil como suicídio. O Ministério Público analisou provas e modificou o entendimento, denunciando Goulart em 2020.
— O que eu quero é justiça. Quem matou o meu filho, independente do grau de parentesco, que seja julgado — relatou a mãe da vítima e irmã do acusado.
Jeverson Goulart responde em liberdade e acompanhou o julgamento por videoconferência, direto do Rio de Janeiro, onde mora atualmente. O interrogatório dele começou por volta das 19h30min. Em sua fala inicial, o réu negou todas as acusações e afirmou que os relatos ouvidos ao longo do dia seriam, segundo ele, "diz que me diz".
— Eu acredito na minha inocência e acredito na minha absolvição — afirmou.
Ao longo da fala, ele acusou familiares e testemunhas de mentirem sobre o caso. Em determinado momento, também criticou matérias divulgadas na imprensa sobre o caso. Goulart, por vezes, não respondeu diretamente às perguntas feitas pelo MP, saindo do tema solicitado e recorrendo à alegação de que diria apenas o que já constava nos autos do processo e no que já foi entendido pela perícia.
— Não sou eu que estou dizendo. São laudos. É a ciência — rebateu, fazendo referência aos exames feitos pelo Instituto-Geral de Perícias.
Ao longo do dia, cinco testemunhas de acusação foram ouvidas. A defesa não arrolou testemunhas. O clima no plenário foi de comoção. Dezenas de pessoas compareceram ao júri vestindo camisetas com a foto de Andrei.
Em alguns momentos, a plateia realizava comentários altos, levando a magistrada Anna Alice da Rosa Schuh, da 1ª Vara do Júri da Capital, a advertir que novas intervenções poderiam fazer com que a sessão seguisse sem plateia.
— Eu nunca me senti sozinha nessa luta. Tenho uma rede de apoio muito grande, amigos, colegas, parentes, meus outros dois filhos. Meus outros irmãos também estão do meu lado — ressaltou Cátia sobre o apoio das pessoas que foram ao Foro.
A primeira testemunha a ser ouvida foi Cátia, mãe de Andrei, que relatou o esforço para reabrir o caso e demonstrou emoção ao relembrar o filho.
— O segmento do processo começa a partir do apelo de uma mãe que queria ser ouvida. Então, acolhemos e fomos atrás de novos elementos. Estamos aqui em um trabalho extremamente importante e convencidos de que estamos do lado da sociedade, do lado da Justiça — declarou a promotora Lúcia Helena Callegari, do Ministério Público.
Depois, um amigo de infância do réu relatou ter sido abusado por Goulart quando tinha cerca de 13 anos. Segundo ele, os episódios ocorreram em duas ocasiões, quando o suspeito o convidou para dormir em sua casa.
O homem contou que jamais havia revelado o ocorrido até tomar conhecimento da morte de Andrei, mas decidiu expor a situação ao pensar no sofrimento da mãe de Andrei.
— Eu lembrei e decidi contar. Pensei na mãe (do menino). Eu corri esse risco também. Eu escapei — afirmou.
Ele disse ter se sentido ameaçado quando o acusado soube de seu testemunho. O amigo chegou a mudar de cidade com medo de represálias.
Outra testemunha ouvida na sessão também relatou ter sido vítima de abuso sexual cometido pelo réu quando era adolescente. Em depoimento, ela afirmou que Goulart teria passado a mão em sua perna, por baixo de um cobertor, enquanto estavam em casa. O ato, segundo ela, foi interrompido porque outra pessoa chegou ao local naquele momento.
Durante o relato, ela também descreveu o comportamento do acusado ao longo dos anos, mencionando que ele costumava se envolver com mulheres muito jovens, inclusive adolescentes, mesmo já sendo adulto. A mulher deixou o plenário chorando e foi acolhida por familiares da vítima.
Um vizinho de Andrei e de Cátia foi a quinta testemunha a falar na sessão. Ele relatou ter ouvido dois disparos de arma de fogo na madrugada do crime.
Profissional da área de segurança, ele contou ter acreditado, inicialmente, que os tiros vinham de uma praça próxima, mas logo percebeu que eram dentro do condomínio ao ver luzes do giroflex das viaturas no local.
Ao saber que a morte de Andrei estava sendo tratada como suicídio, disse ter se questionado como um suicídio poderia ter ocorrido com dois disparos. Essa dúvida o motivou a testemunhar em favor da família da vítima.
Durante o depoimento, promotores do Ministério Público e a defesa do réu fizeram diversas perguntas sobre armas e disparos ao homem, buscando aferir o grau de conhecimento técnico dele sobre o tema. A testemunha respondeu a todas as questões.
O réu, em seu depoimento, negou as alegações de que ele teria abusado das testemunhas, menores na época dos episódios, segundo os relatos.
Segundo a denúncia do Ministério Público, o caso transcorreu entre os dias 29 e 30 de novembro de 2016 na casa onde a vítima morava com a família, na zona sul de Porto Alegre. Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, 12 anos, foi encontrado morto com um tiro na cabeça.
O óbito ocorreu quando ele estava sozinho com o tio, Jeverson Olmiro Lopes Goulart, brigadiano da reserva.
O caso inicialmente foi tratado como um suicídio. Um ano após o crime, em 2017, a Polícia Civil remeteu inquérito sem responsabilizar ninguém pela morte. No entanto, o Ministério Público seguiu no caso e obteve novas informações a partir de relatos de familiares.
Para o Ministério Público, o PM estuprou o adolescente no dia 29. Depois, para ocultar o crime, teria efetuado o tiro enquanto a vítima dormia, na madrugada seguinte, dia 30. Além disso, após o homicídio, foi feita a manipulação da cena para forjar um suicídio.
A acusação argumenta que o réu se aproveitou da convivência familiar estabelecida, já que ambos compartilhavam o mesmo quarto.
Jorge Bandeira, advogado que representa o réu Jeverson Olmiro Lopes Goulart, disse que a defesa sempre acreditou que o "cliente não cometeu tudo o que foi dito".
— Evidentemente que por trás tem uma trama que ficou clara hoje. E amanhã (terça-feira, 28), nos debates, a defesa vai desenvolver melhor a título de demonstrar isso.
Segundo Bandeira, a expectativa é pela absolvição de Goulart.