09/10/2025 | 18:01 | Polícia 4 min de leitura
Adir Aliatti, rebatizado Prem Milan, é suspeito de coagir seguidores a praticar sexo livre como forma de terapia e pregar cura gay, entre outros delitos. Polícia fala em 40 vítimas e desvio de pelo menos R$ 20 milhões
A Polícia Civil concluiu nesta quinta-feira (9) as investigações sobre o guru espiritual Adir Aliatti, 70 anos, fundador da comunidade Osho Rachana em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre. Rebatizado Prem Milan, Aliatti foi indiciado por 13 crimes. Além dele, os filhos André Blos Aliatti e Amanda Blos Aliatti respondem pelos mesmos delitos. O inquérito foi remetido ao Ministério Público, que decidirá pela denúncia ou não.
Tortura, charlatanismo e violência sexual mediante fraudes, entre outros crimes (veja lista completa abaixo), sustentaram o indiciamento. Conforme a polícia, o guru teria feito 40 vítimas e desviado mais de R$ 20 milhões, além de alcançado um prejuízo de R$ 4 milhões nas operações que realizava.
De acordo com as investigações, Aliatti também usaria o dinheiro de seguidores para pagar viagens de luxo e apostas online.
Ao longo dos anos, práticas de suposta cura gay, além de casos de discriminação racial e de gênero, diversas formas de tortura e crimes financeiros teriam sido cometidos.
"O que se apresentava como caminho de autoconhecimento, na verdade, escondia práticas de abuso, coerção e enriquecimento ilícito. Nosso trabalho busca dar voz às vítimas e impedir que novos casos semelhantes aconteçam."
JEISELAURE DE SOUZA
Responsável pela investigação
Integrantes da comunidade pagavam pacotes de imersão que custavam entre R$ 8 mil e R$ 12 mil, além de mensalidades para viver no local.
Ainda segundo a investigação, o guru exigia que as pessoas fizessem empréstimos bancários e entregassem o dinheiro para a comunidade. No entanto, o valor seria desviado para benefício próprio.
As investigações começaram quando ex-integrantes da seita acionaram o Ministério Público, em 2022, relatando supostos atos violentos que seriam cometidos pelo guru do grupo. As pessoas disseram ter procurado a comunidade para realizar "imersões e terapias bioenergéticas alternativas". As práticas incluíam meditações e sexo livre.
Após o pagamento dos pacotes de imersão e das mensalidades, os integrantes do grupo dividiam tarefas cotidianas e cultivavam produtos orgânicos, que eram vendidos na região. Pães e agendas também eram vendidos nas ruas de Porto Alegre. Essas atividades seriam coordenadas pelo guru, com o pretexto de reverter os recursos à comunidade.
Aliatti foi alvo de operação da Polícia Civil no dia 11 de dezembro de 2024, quando foram cumpridos mandados de busca e apreensão e de bloqueio de bens. No mesmo dia, após análise inicial das descobertas no local onde fica a comunidade e dos depoimentos de novas testemunhas, definidos pela delegada como “impactantes”, foram feitos pedidos de prisão preventiva de Aliatti e dos filhos.
Os pedidos, contudo, foram indeferidos pelo Judiciário que estipulou medidas cautelares. Os três seguem em liberdade mediante uso de torneleira eletrônica. A Justiça também determinou que entregassem seus passaportes e não mantivessem contato pessoal ou virtual com as vítimas que viveram na comunidade.
Os filhos são suspeitos de terem participado e dado suporte às supostas atividades delituosas.
— A Operação Namastê expôs uma estrutura sofisticada de manipulação espiritual e emocional, em que a crença e a vulnerabilidade das pessoas foram exploradas de forma sistemática — afirma a delegada Jeiselaure de Souza, responsável pela investigação, à época, titular da 1ª Delegacia de Polícia de Viamão.
A Osho Rachana foi estruturada em uma área rural da Região Metropolitana, na localidade de Cantagalo, interior do município de Viamão, em 2005. Em um sítio de 42 hectares, o nome da comunidade é uma alusão a Osho (1931-1990), mestre indiano, apelidado de "guru do sexo". Para ele, a verdade só é conhecida no silêncio meditativo. O mestre indiano, defendia que "o orgasmo sexual oferece o primeiro vislumbre da meditação".
Cerca de cem pessoas chegaram a viver no sítio, apesar do número ter caído gradativamente nos últimos anos.
Em 2016, a reportagem de Zero Hora passou dois dias convivendo com 70 pessoas no local, entre funcionários públicos, professores, músicos, dentistas, engenheiros, programadores, estudantes, massoterapeutas e terapeutas, brasileiros e estrangeiros da Suíça, Espanha, Alemanha e Portugal.
A defesa de Adir Aliatti, representada pelo advogado Rodrigo Oliveira de Camargo, informou que só irá se manifestar após acessar o relatório do indiciamento. A reportagem segue buscando a defesa de André e Amanda.