15/07/2025 | 11:35 | Polícia 6 min de leitura
Quatro mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão são cumpridos nesta terça-feira contra suspeitos de integrarem esquema
Durante a investigação da segunda fase da operação Falso Patrono — que tem como alvos suspeitos de aplicarem o golpe do falso advogado — a Polícia Civil descobriu uma espécie de cartilha do crime. Trata-se de um documento com orientações sobre como os estelionatários deveriam abordar as vítimas e que termos deveriam ser usados para convencê-las da trapaça.
Uma série de casos levou a polícia gaúcha a rastrear um grupo criminoso suspeito de estar por trás desta fraude. Uma ação é desencadeada em São Paulo nesta terça-feira (15) pelo Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos do Rio Grande do Sul. Quatro mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão contra suspeitos de integrarem a quadrilha são cumpridos.
Até o momento, duas pessoas foram presas, incluindo o homem apontado como líder do esquema. O grupo é investigado por estelionato, falsificação de documentos e falsa identidade. Crimes cometidos, segundo a investigação, para concretizar o golpe, no qual se passavam pelos advogados das vítimas (leia abaixo como funciona).
— Em 90 dias, o departamento executou 32 prisões preventivas relacionadas a esse golpe e agora estamos cumprindo mais quatro. Em regra, os golpistas, os estelionatários, têm compreensão de que crimes de estelionato não levam à prisão. Temos demonstrado aqui no RS uma nova realidade. Temos atuado firme nas investigações, comprovando a autoria desses golpes. E o Poder Judiciário tem sido sensível, compreendendo que é importante a decretação das prisões preventivas — afirma o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do departamento.
Segundo a polícia, para concretizar o golpe, os estelionatários monitoram informações verdadeiras — e muitas vezes públicas — sobre processos em andamento. Os golpistas forjam documentos, como alvará de liberação e certidão de impostos, para tornar o esquema mais convincente. Ainda no ano passado, começaram a chegar à polícia diversos relatos de advogados que tiveram os nomes, imagens e logos usados pelos golpistas.
Em parte dos casos, clientes dos escritórios chegaram a ser lesados, pagando quantias aos golpistas. Os estelionatários se passavam pelos advogados ou por funcionários deles e ludibriavam os clientes, após obterem dados sobre ações, geralmente envolvendo aposentadorias. Os golpistas afirmavam que a vítima havia ganhado a ação, passando-se pelo advogado dela. No entanto, para receber o montante, seria necessário arcar com custas, como impostos ou outros valores.
A mesma trama era mantida nos golpes e repassada aos integrantes do grupo, segundo a polícia, por meio do uso de uma espécie de cartilha.
— A gente atinge, nessa fase da operação, indivíduos que possuem maior expertise na prática do golpe. E eles se utilizavam de uma cartilha para repassar para os outros integrantes a forma exata de praticar a fraude. Eles tinham passo a passo para abordar as vítimas, as palavras que deveriam ser usadas — afirma João Vitor Herédia, da Delegacia de Repressão a Crimes Patrimoniais Eletrônicos.
Entre os áudios obtidos pela investigação estão conversas das vítimas com os golpistas. Um dos pontos que fica evidente é que as pessoas são fisgadas pela trapaça ao acreditarem que vão receber um valor em dinheiro referente à ação. As vítimas enganadas não se dão conta de que se trata de um golpe.
— Que notícia maravilhosa — responde uma delas.
— Fiquei feliz de ter saído esse dinheiro. Como eu faço para pegar? — diz outra vítima.
— Nem sabia que ia receber algum valor de volta. Eu trabalhei muito esses 30 anos, foi muita dedicação — descreve uma terceira, que acreditava que receberia R$ 11,9 mil.
— Desses R$ 16 mil tem que tirar o valor de vocês ou já descontaram? — questiona uma das vítimas.
O delegado Moreira Neto alerta que as pessoas devem desconfiar especialmente ao depararem com três situações: contato com pessoas desconhecidas, oferecimento de facilidades e que essa facilidade tenha de ser aproveitada com urgência. São elementos em geral empregados pelos golpistas para fisgar as vítimas e concretizar a fraude antes que ela se dê conta.
— Temos visto diversas situações em que golpistas se prevalecem de pessoas vulneráveis. Pessoas que precisam do dinheiro e acabam sofrendo o golpe e perdendo aquele dinheiro que nem têm — diz o delegado.
Entre os suspeitos de integrar o grupo está um homem de 24 anos, natural de Guarulhos (SP), que é apontado como o responsável por abordar diretamente parte das vítimas e manter contato com pessoas de interesse do grupo, como advogados que fariam a defesa em caso de prisão. O suspeito segundo a polícia, teria chegado a utilizar contas de familiares para receber valores obtidos com o golpe e já tinha antecedentes criminais por estelionato, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Ele é um dos presos na manhã desta terça-feira
— A segunda fase foca em indivíduos de maior proeminência da organização. São indivíduos que operavam todo o golpe e eram beneficiários dos lucros. Um era responsável por fazer as consultas, obter os dados de advogados para o golpe. Um por abordar as vítimas e personificar o advogado. E outros beneficiários finais obtendo todo o lucro obtido através do golpe — explica Herédia.
A operação ainda contou com o apoio da Polícia Civil de São Paulo, por meio do Departamento Estadual de Investigações Criminais.
No início deste mês, foram cumpridos sete mandados de prisão no Ceará, além de outras ordens judiciais de busca e apreensão em Minas Gerais e Santa Catarina na primeira fase desta mesma operação. A polícia conseguiu identificar 15 suspeitos no Ceará, um em Santa Catarina e um em Minas Gerais. Foram executadas ordens de prisão contra sete suspeitos, que residiam no Ceará, Estado de onde o golpe era coordenado. Um dos integrantes presos na primeira fase é um homem de 44 anos de Fortaleza, responsável por criar meios para a prática dos crimes, além de controlar financeiramente os valores obtidos com a fraude.
— São vários dados de advogados utilizados. A nível de Brasil, chegam a milhares de vítimas. Essa organização não focava apenas em advogados gaúchos, apesar de ter grande volume de ocorrências aqui, mas se usava de dados de advogados de todo o Brasil — afirma Herédia.
Os golpistas monitoram os sistemas dos tribunais para identificar processos judiciais, especialmente aqueles envolvendo pagamentos de precatórios, requisições de pequeno valor ou indenizações. Coletam nomes das partes, CPFs, nomes dos advogados e números dos processos.
De posse desses dados, os criminosos entram em contato com as vítimas, geralmente via WhatsApp ou ligação telefônica, utilizando um número desconhecido. Eles se apresentam como o advogado, um assessor, secretário(a) do escritório ou até mesmo um funcionário do Tribunal.
A abordagem é convincente. O golpista informa que um valor expressivo (o precatório ou a indenização) foi finalmente liberado. Para dar veracidade, enviam documentos falsificados com timbres do Poder Judiciário ou do escritório de advocacia.
Para a liberação do dinheiro, no entanto, afirmam que a vítima precisa pagar "custas processuais", "impostos" ou "taxas cartorárias" de forma antecipada. O pagamento é invariavelmente solicitado via Pix para contas de laranjas.
Em alguns casos, os fraudadores utilizam chamadas de vídeo, fotos, vídeos e áudios com linguagem jurídica para aumentar a credibilidade da fraude, dificultando a desconfiança por parte da vítima.